Serapião[1]
era um velho mendigo que perambulava pelas ruas da cidade. Ao seu lado, o fiel
escudeiro, um vira lata, que atendia pelo nome de Malhado.
Serapião não pedia dinheiro. Aceitava
sempre um pão, uma banana, um pedaço de bolo ou um almoço, feito com sobras de
comida dos mais abastados.
Quando suas roupas estavam
imprestáveis, logo era socorrido por alguma alma caridosa. Mudava a
apresentação e era alvo de brincadeiras.
Serapião era conhecido como um homem
bom, que perdera a razão, a família, os amigos e até a identidade. Não bebia
bebida alcoólica, estava sempre tranqüilo, mesmo quando não havia recebido nem
um pouco de comida. Dizia sempre que Deus lhe daria um pouco na hora certa e,
sempre na hora que Deus determinava, alguém lhe estendia uma porção de
alimentos.
Serapião agradecia com reverência e
rogava a Deus pela pessoa que o ajudava. Tudo que ganhava, dava primeiro para o
Malhado, que, paciente, comia e ficava à espera por mais um pouco.
Não tinham onde dormir; onde
anoiteciam, lá dormiam. Quando chovia, procuravam abrigo embaixo da ponte do
Ribeirão Bonito e, ali, o mendigo ficava a meditar, com um olhar perdido no
horizonte.
Aquela figura me deixava sempre
pensativo, pois eu não entendia aquela vida vegetativa, sem progresso, sem
esperança e sem um futuro promissor.
Certo dia, com a desculpa de lhe
oferecer umas bananas, fui bater um papo com o velho Serapião. Iniciei a
conversa falando do Malhado, perguntei pela idade dele, o que Serapião, não
sabia. Dizia não ter idéia, pois, se encontraram um certo dia quando ambos
andavam pelas ruas.
- Nossa amizade começou com um pedaço
de pão - disse o mendigo.
- Ele parecia estar faminto e eu lhe
ofereci um pouco do meu almoço e ele agradeceu, abanando o rabo, e daí, não me
largou mais. Ele me ajuda muito e eu retribuo essa ajuda sempre que posso.
- Como vocês se ajudam?
- perguntei.
- Ele me vigia quando estou dormindo;
ninguém pode chegar perto que ele late e ataca. Também quando ele dorme, eu
fico vigiando para que outro cachorro não o incomode.
Continuando a conversa, perguntei:
- Serapião, você tem algum desejo de
vida?
- Sim
- respondeu ele.
- Tenho vontade de comer um cachorro
quente, daqueles que a Zezé vende ali na esquina.
- Só isso?
- indaguei.
- É, no momento, é só isso que eu
desejo.
- Pois bem, vou satisfazer agora esse
grande desejo.
Saí e comprei um cachorro quente para
o mendigo. Voltei e lhe entreguei. Ele arregalou os olhos, deu um sorriso,
agradeceu a dádiva e em seguida tirou a salsicha, deu para o Malhado, e comeu o
pão com os temperos. Não entendi aquele gesto do mendigo, pois imaginava ser a
salsicha o melhor pedaço.
- Por que você deu a salsicha para o
Malhado? - perguntei, intrigado.
Ele, com a boca cheia, respondeu:
- Para o melhor amigo, o melhor
pedaço!
E continuou comendo, alegre e
satisfeito.
“Um tesouro nem sempre é um amigo,
mas um amigo sempre é um tesouro”.
Pense nisso!
meusonhonaotemfim.org.br
